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sábado, 14 de abril de 2012

Entrevista com o técnico do Barcelona juvenil, e ainda dizem que é balela.

DIRETO DE AMSTERDÃ

A comissão técnica do Desportivo Brasil está ansiosa pelo confronto entre Barcelona e Ajax pelas semifinais da Aegon Future Cup. O coordenador técnico e ex-treinador Lucas Goes pede que se filme a partida e acompanha o confronto, no último sábado, com máxima atenção. Os estilos são similares, se confundem. Mas Lucas conta 11 ligações diretas defesa-ataque da equipe holandesa, que venceria o duelo nos pênaltis. Do Barça, linear e sempre igual, nenhuma. É bola de pé em pé.


O treinador desse time, Francisco Javier Pimenta, atendeu a reportagem do Olheiros por 30 minutos para explicar mais, e de forma detalhada, sobre a melhor base do planeta. A que constrói o time que se encaminha para ser o maior onze inicial da história do futebol mundial, com até 80% dos titulares feitos na casa, em La Masía. Pimenta, ex-jogador do Barça, soma seis anos como treinador da formação. Ele foi auxiliar técnico da geração /87, com Piqué, Fabregas e Messi. Quiçá a melhor da história barcelonista.

Pimenta está no comando do Juvenil B, o sub-17. À frente, só o Juvenil A e o Barça B para alcançar a primeira equipe. Treinador há seis anos, soma quase duas décadas de convívio no seio barcelonista. Sabe exatamente o modelo de jogadores que se busca na base azul-grená.
Não pode dar chutão, não pode ser grande demais e ter técnica de menos. Um tapa na cara nos times que vencem torneios na base com centroavantes grandalhões que nunca irão se confirmar nos profissionais. "Pode ser o melhor do torneio, mas para nós não serve. Em cima, se pedirão coisas que ele não poderá fazer". 

Confira a entrevista exclusiva na íntegra:
Olheiros - Como avaliou o confronto com o Ajax na Future Cup?
Francisco Javier Pimenta - Um time muito bom, muitas ideias similares às nossas porque faz as coisas rápidas. Quando tivemos a bola, deixamos o rival atrás. E quando eles têm, nos dão problemas também. Tentamos adaptar os jogadores a esse tipo de partida, porque também iríamos sofrer. É importante isso porque na maioria das partidas temos sempre a bola. Podemos ter dificuldades, mas sempre temos a bola. Por isso, esse tipo de jogo é importante. Se não tem a bola, precisa correr e se cansa. Isso vale como experiência para os garotos. Sentimos o que a maioria das equipes sente quando nos enfrenta.
Olheiros - Agora vamos falar de forma mais ampla. Existe uma padronização tática, de fato, como costuma se dizer?
Pimenta - Todas categorias jogam em 4-3-3, mas podemos mudar para o 3-4-3. Há essas duas características para o tipo de equipe. No 4-3-3, dois jogadores na defesa (zagueiros), um muito próximo (primeiro volante) e mais dois (meias). Durante as partidas podemos mudar, temos essa variante.
Olheiros - Qual é o tipo de jogador que serve ao Barcelona na base?
Pimenta - Se queremos contratar um jogador, contratamos com o perfil da posição. Um jogador às vezes pode jogar bem aqui no torneio, mas para nós pode não servir porque não joga bem. Ou porque não joga rápido. Isso (filosofia) demora anos a se encontrar.
Olheiros - Não é possível adaptar um jogador de outro estilo?
Pimenta - Um bom jogador sempre irá se adaptar a todos os sistemas. Mas temos a experiência de grandes jogadores de categorias pequenas que chegaram ao time B (último estágio para a primeira equipe) e não se acostumaram ao jeito de jogar. Por esse estilo, essa maneira, essa velocidade. Para eles custa muito. Mas há alguns que demoram a se adaptar, também. Cinco meses, seis meses, mas depois conseguem. Outros seriam os melhores em outras equipes, mas aqui não iriam se adaptar.
Olheiros - Qual a idade máxima para o Barcelona buscar jogadores na base?
Pimenta - Para o sub-14 é a idade ideal. No time sub-15, ele está desenvolvendo o corpo. Já pensamos mais acima, na formação, e vemos se o menino tem condições ou não. Às vezes pode parecer muito bom antes, mas depois não se desenvolve. Quando chega com 14 anos, você normalmente tem quatro anos ou mais de margem na formação. São dois anos no cadete e três no juvenil. Cinco anos de formação.
Olheiros - Acima dos 14 anos é muito difícil?
Pimenta - Sim, só em casos específicos. Para os juvenis, são um ou dois por ano, quando muito. No Barça B, um ou nenhum. São muito poucos.
Olheiros - Mas como olhar para o jogador de 10 anos e imaginar se ele vai jogar no Barcelona?
Pimenta - Se contratamos é porque pensamos que vai subir, que vai progredir. Que pode chegar, não que vai chegar. É muito difícil, há muitos jogadores. Nem todos servem para nós. Às vezes tem uma característica de centroavante que não queremos. É muito alto, forte, ganha de cabeça, mas não poderia jogar conosco porque futebolisticamente, em cima, pediríamos coisas que ele não vai poder fazer. Todos queriam o jogador e nós não queremos. Nesse momento iria muito bem, para os juvenis ou cadetes. Mas cremos que não chegaria em cima. Então não serve.
Olheiros - Você tem liberdade para fazer algo muito diferente?
Pimenta - Sim e não, porque todos que vêm até aqui têm a mesma ideia. Não posso jogar aqui com quatro defensores, quatro meio-campistas, dois centroavantes e bola acima, muita luta, defensivo...não e não. Já me conhecem e eu conheço o clube, o perfil de jogadores que precisamos ter. Todos que temos aqui precisam jogar bem. Para nós não é possível outro sistema de jogo. Para jogar aqui, precisa jogar como na primeira equipe.
Olheiros - Qual é a importância da adaptação no Barcelona B?

Pimenta -
Após os juvenis, alguns sobem ao Barça B. São equipes muito boas na segunda divisão, jogadores dois ou três anos maiores. Muita exigência, bolas largas, sempre muita dificuldade, campos ruins. Tem que dar o máximo para poder competir.
Olheiros - Dá para saber quantos vão chegar nos profissionais ou mesmo no Barça B?

Pimenta -
Impossível. Até lá são dois ou três anos, mas normalmente a maioria. Antigamente havia outra equipe entre o Barça B e o juvenil. Agora, o salto do juvenil ao Barça B, na segunda divisão, é mais difícil.
Olheiros - Como é a relação e a participação do Guardiola no trabalho dos treinadores da base?

Pimenta -
Ele tem muitíssimo trabalho na primeira equipe e não pode se dedicar tanto a isso. É quarta e domingo sempre. Mas a maioria dos treinadores a partir dos cadetes até acima, às vezes, sentamos com ele e conversamos. A maioria é composta por ex-jogadores da casa, desde pequenos, e conhecemos o Barcelona. São muitos anos trabalhando para jogar e todos trabalham mais ou menos na mesma linha. Nos reunimos periodicamente e, se ele necessita de alguma coisa, oferecemos.

Olheiros - A quem você se reporta?

Pimenta -
Temos Guillermo Amor, responsável pelo futebol do Barcelona da minha equipe (Juvenil B) até abaixo. E na primeira equipe, Barça B e Juvenil A, que já tem mentalidade claramente profissional, Zubizarreta é o máximo responsável.

Olheiros - Chegou a trabalhar com Messi? Podia imaginar tanto sucesso?

Pimenta -
Trabalhei como auxiliar no time do Messi, Piqué e Fábregas. Ele já era cadete A. No sub-16, já se via um jogador muito diferente. Podia acontecer ou não, mas se via um jogador de primeiríssimo nível. E outros jogadores /87, como Victor Vazques. Eram jogadores muito bons e se via que quatro ou cinco tinham perfil de primeira equipe. Juvenil, Barça B, mas se via perfil claríssimo de primeira equipe.

Olheiros - Ele já era baixo e tímido?

Pimenta - Já era baixo. A maioria é assim. Não viu aqui? Temos muitos pequenos. E não era tímido, não. Não era de falar muitas coisas, mas não tímido. Muito bom no vestiário, competitivo nos treinamentos e nas partidas da liga. No ano seguinte, subiu ao Juvenil B, Juvenil A, Barça C, Barça B e debutou no Barça A. Tudo em um mesmo ano! Jogava no Juvenil B e no Barça B sem nenhum problema. Era impressionante.

Olheiros - Esse momento é de satisfação para quem participou desse processo?

Pimenta -
Para nós, o mais importante êxito é quando um jogador da base chega na primeira equipe. É o maior êxito. É seu trabalho e sua recompensa. Em outros clubes há bases boas, muitos bons jogadores. E não chegam. Real Madrid tem grandes times, podem ganhar, mas não se aproveitam os jogadores na primeira equipe. Não é como aqui. Aqui quando é bom, subirá. Guardiola sempre tenta olhar os jogadores.
Olheiros - Esse sucesso traz algum tipo de pressão?

Pimenta -
Não. No Juvenil B, por exemplo, dois jogadores foram para o Arsenal e outro para a Juventus porque decidiram por uma melhor oferta econômica. Temos seis ou sete jogadores de 1996 (inscritos) e o torneio permite até um de 94 (o limite é /95). Competimos bem, perdemos, mas podemos perder. E resistimos ao máximo (contra o Ajax). Quando maior a dificuldade, mais aprendemos. Queremos que suba à primeira equipe porque aí poderão ganhar tudo. Se compete aqui, vai competir acima. Não tem pressão.
Olheiros - Thiago Alcântara será o substituto do Xavi?

Pimenta -
Fui treinador do Thiago no Cadete A e tínhamos claríssimo que ele seria de primeira equipe. O que fez Xavi no mundo do futebol é muito difícil de igualar. O que fez o pai de Thiago (Mazinho) no mundo de futebol é muito difícil. Thiago tem as condições de ser um grande jogador do Barça, pode substituir e tem muitas qualidades. Pode ser (substituto) porque é um excelente jogador.

Olheiros - E o irmão, Rafinha?

Pimenta -
Estava no Juvenil A anteriormente e também é um excelente jogador. Já subiu um ano antes e tem condições claríssimas de primeira equipe. Creio que terá as chances em pouco tempo. Depois precisará se manter.

Olheiros - Também se fala muito sobre o Deulofeu. O que pode dizer desse jogador?

Pimenta
- É de 94 e está jogando na segunda divisão. E debutou na primeira equipe! É um extremo e, no um contra um, é muito rápido e tem muita qualidade. É outro que normalmente precisará jogar na primeira equipe. Perfil Barça. É assim, é normal. No um contra um, tem o que exigimos.

Olheiros - No Brasil, de dois anos para cá, há muitos times que falam em executar o modelo Barça. É simples assim?

Pimenta
- A maioria das equipes quer trabalhar assim. Sempre há pessoas que veem ver como treinamos, mas passam dois anos e mudam as coisas. O perfil do jogador não é sempre o mesmo e não posso exigir algo do jogador que ele não pode dar. Por isso, às vezes não serve para nós. São muitos anos acreditando nisso, com treinadores que acreditam nisso.


Fonte: http://olheiros.net/artigo/ler/3315/o_melhor_jogador_do_torneio_pode_nao_servir_para_atuar_no_barcelona

domingo, 27 de junho de 2010

Andrew Jennings fala sobre corrupção ao Estadão

Enquanto o English Team sofria para passar às oitavas contra a Eslovênia, o escocês Andrew Jennings desfiava o sarcasmo adquirido ao longo da vida de repórter investigativo na Inglaterra, na BBC e em grandes jornais. Com a pontaria muito mais calibrada que a dos artilheiros desta Copa do Mundo, o jornalista vai relatando casos de corrupção que apurou para produzir seus três livros sobre o Comitê Olímpico Internacional (COI) e outro sobre a Federação Internacional de Futebol (Fifa) – mesmo sendo o único jornalista do mundo banido das coletivas da entidade desde 2003. 
Um dos escândalos relatados por ele em 2006, no livro Foul! The Secret World of Fifa (não traduzido no Brasil), teve um desfecho na sexta-feira. Altos dirigentes da organização máxima do futebol receberam propina, admitiu a Justiça suíça. Mas eles não serão punidos porque a lei do país, que é sede da Fifa, permitia o “bicho” na época.

Os figurões pagarão apenas os custos legais e suas identidades não serão reveladas. “É por isso que meu segundo livro sobre o tema será uma comparação da Fifa com o crime organizado”, conta. Ele optou por publicar a obra depois das eleições na entidade, em maio de 2011, embora duvide que alguém vá enfrentar o dono da bola, Joseph Blatter. “Ninguém ousa desafiar a Fifa porque eles controlam o dinheiro. E a imprensa cala”, dispara Jennings.
Em suas investigações sobre a Fifa, o que o senhor descobriu?
A Fifa é comandada por um pequeno grupo de homens – não há mulheres em altos postos da entidade e isso fala por si – que está lá há muitos anos. São homens em quem não devemos confiar e contra quem temos provas contundentes. Eles podem continuar no poder porque controlam o dinheiro. E tornam a vida dos dirigentes das confederações nacionais muito boa e fácil. Fico envergonhado porque ninguém se manifesta contra esse poder.

Como os dirigentes se manifestariam?
Zurique, sede da Fifa, é uma Pyongyang do futebol. O líder fala e os outros agradecem. Numa democracia é esperado que haja discordância, oposição. Na Fifa, não há. Eles têm um congresso a que, ironicamente, chamam de parlamento. São cerca de 600 delegados – acho que são 2 ou 3 por país representado, e são 208 países. Se você chegasse de Marte acharia que o mundo é perfeito, porque todos concordam. É vergonhoso. Nisso, a CBF é tão culpada quanto todas as outras confederações.

Que instrumentos a Fifa usa para manter esse poder?
A Fifa dá cerca de US$ 250 mil por ano para cada país investir em futebol. Na Europa, não precisamos desse dinheiro. A indústria do futebol fatura o suficiente para se alimentar. Mas é uma forma de a Fifa se manter. Esse dinheiro nunca é auditado. Na Suíça, a propina comercial não era ilegal até pouco tempo, apenas o suborno de oficiais do governo. O caso que eu conto no meu livro é justamente sobre um esquema de propinas pagas pela International Sport and Leisure (ISL), empresa que negociava os direitos televisivos e de marketing da Fifa. A história é cheia de detalhes, mas no final a ISL só foi responsabilizada pelo fato de gerenciar mal seus negócios enquanto devia para outras empresas.

Não houve punição?
Como eu disse, o pagamento de propina não era ilegal na Suíça. Portanto, não havia crime a ser punido. As acusações contra a Fifa foram retiradas e a entidade foi multada em 5,5 milhões de francos suíços (cerca de US$ 5 milhões) para custos legais.

Por que os governos não se envolvem ou a Justiça não faz algo?
Porque a sede da Fifa é na Suíça e a lei lá é muito permissiva. Para outros países, é inaceitável que esses homens se safem tão facilmente e que os altos dirigentes riam da nossa cara desse jeito. O que me deixa enojado é que os líderes dos países – o primeiro-ministro britânico, o presidente Lula e todos os outros – façam negócio com essas pessoas. Eles deveriam lhes negar vistos, deveriam dizer que não querem se relacionar com dirigentes tão corruptos. E tenho certeza de que, se os governantes se voltassem contra a corrupção da Fifa, teriam apoio maciço dos torcedores/eleitores.

Por que todos são tão complacentes?
Suponhamos que você seja uma torcedora fanática pelo seu time. Você vai à Copa do Mundo, mas como sempre há escassez de ingressos. Você então compra suas entradas de cambistas, mesmo sabendo que parte desse ágio vai voltar para o bolso da Fifa, já que ela é suspeita de liberar esses ingressos para os ambulantes. Você não pode provar, claro, mas você sabe. As pessoas não são estúpidas. Os governos menos ainda, eles podem investigar o que quiserem. Mas não investigam a Fifa porque os políticos simplesmente ignoram os torcedores. É o que já está acontecendo com a Copa de 2014. Qualquer brasileiro com mais de 10 anos sabe que a corrupção já está instalada. Por que ninguém faz nada?

Por quê?
É difícil saber. Se um país relevante enfrentasse a Fifa ela recuaria. Ou você acha ela excluiria o Brasil de uma Copa? Eles conseguem enganar países pequenos, esquecidos pelo mundo. Mas, se o Brasil dissesse não à corrupção, provavelmente a América Latina se uniria a vocês. E você acha que esses líderes latino-americanos nunca discutiram a possibilidade de um levante, de fazer o que os europeus já deveriam ter feito há tempos? Acho que lhes falta coragem.

O Brasil tentou fazer uma investigação, por meio de uma CPI.
Tentou e foi ao mesmo tempo uma vitória para o país e uma grande decepção, porque pararam de investigar no meio. O povo vai ter de pressionar os políticos a fazer algo. É realmente uma pena que o Brasil tenha chegado tão longe na investigação e tenha desistido no caminho. Havia provas para seguir em frente, para tirar a CBF das mãos do Ricardo Teixeira e, quem sabe, colocar auditores independentes lá dentro. A Justiça também poderia ser mais ativa. Por mais que eles tenham comprado alguns juízes, não compraram todos, certamente.

Sabendo de tudo isso o senhor ainda consegue curtir o futebol, se divertir com ele?
Sim, porque a corrupção não está tão infiltrada nos jogos, embora chegue a essa ponta também. Ela fica mais nos bastidores. Há exceções, como na Copa de 2002, em que a Espanha e a Itália foram roubadas grotescamente. Era importante para a Fifa que a Coreia do Sul passasse adiante. Não foi culpa dos jogadores, mas as razões políticas e econômicas se impuseram. Na Coreia, o beisebol é mais popular do que o futebol. Se eles fossem desclassificados, os estádios se esvaziariam. Neste ano, todos ficaram de olho nos jogos de times africanos. Blatter também precisa de um time do continente nas oitavas. A questão é que, quando assistimos às partidas, assistimos aos atletas, ao esporte, então, é possível confiar. É fácil punir um árbitro corrupto e a maioria não é corrompida.

Então, a corrupção não interfere tanto no esporte?
Cada centavo que os dirigentes tiram ilicitamente da Fifa ou das organizações nacionais é dinheiro que eles tiram do esporte e de investimentos. Portanto, estão desviando de nós, torcedores, e dos atletas que jogam no chão batido em países subdesenvolvidos. Eles tiram dos pobres.

É possível para os jogadores, técnicos e dirigentes se manterem distantes da corrupção no futebol?
Bom, o dinheiro normalmente é tirado do orçamento do marketing, não afeta jogadores e técnicos dos times nacionais. Uma coisa interessante é o comitê de auditoria interna da Fifa. Um dos membros é José Carlos Salim, que foi investigado muitas vezes no Brasil. Por que você acha que ele está lá? Para fingir que não vê.

A corrupção no futebol começa nos clubes e se espalha ou vem de cima para baixo?
Sempre haverá um nível de roubalheira em todas os escalões. Para isso temos leis e, às vezes, conseguimos aplicá-las. Mas a pior corrupção está na liderança mundial. Quase todos os países assinam tratados internacionais anticorrupção, mas não fazem nada quanto aos desmandos da Fifa e do COI. E, quando algum governante tenta ir atrás de dirigentes de futebol corruptos, a Fifa ameaça suspender o país. Só que ela faz isso com os pequenos. Fizeram isso com Antígua! Suspenderam o país minúsculo que ousou processar o dirigente nacional. Ninguém falou nada. Eu escrevi sobre isso porque tenho fãs lá que me avisaram do caso.

O senhor se sente uma voz solitária na imprensa?
Não confio na cobertura esportiva das agências internacionais. Em outras áreas elas são ótimas. Não no esporte. É uma piada. Apresento documentários com denúncias graves sobre a Fifa na BBC, num programa de jornalismo investigativo chamado [ITALIC]Panorama[/ITALIC], e dias depois a BBC Sport faz um programa inteiro em que Joseph Blatter apresenta alegremente a nova sede da Fifa em Zurique.

O senhor acompanhou a briga do técnico Dunga com a imprensa brasileira?
Não vou comentar o episódio porque não acompanhei de perto. Posso dizer que a imprensa inglesa e a da maioria dos países é puxa-saco. E sem razão para isso. A desculpa é que os editores têm medo de perder o acesso às seleções e à Fifa. Bobagem. Ora, eu fui banido das coletivas da Fifa sete anos atrás e ainda consegui escrever um livro e fazer várias reportagens. A imprensa deve atribuir as responsabilidades às autoridades. Se não fizer isso, é relações públicas. Tenho milhares de documentos internos da Fifa que fontes me mandam e não param de chegar. Por que só eu faço isso?
A cobertura se concentra mais no evento esportivo em si e nas negociações de jogadores?
Exato, também porque a chefia das redações tende a se concentrar nos assuntos de política nacional, internacional e na economia e deixar o esporte em segundo plano.

O que o senhor espera da Copa no Brasil, em 2014?
Há algumas semanas, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, deu um piti público cobrando o governo brasileiro para que acelerasse as construções para a Copa. Estranhei muito, porque não imagino que o governo brasileiro se recusaria a financiar uma Copa. Vocês são loucos por futebol, estão desenvolvendo sua economia, têm recursos e podem achar dinheiro para isso. Uma fonte havia me dito que Valcke e Ricardo Teixeira tinham tirado férias juntos, estavam de bem. Então, o que está por trás dessa gritaria? É pressão para o governo brasileiro colocar mais dinheiro público nas mãos da CBF. Mundialmente, as empreiteiras têm envolvimento com corrupção. Dá para sentir o cheiro daqui.

Três de seus livros são sobre as Olimpíadas. As falcatruas acontecem em qualquer esporte ou são predominantes no futebol?
Sou cuidadoso ao falar disso. Sei que a liderança da Fifa é muito corrupta – e venho publicando isso há mais de dez anos sem que eles tenham me processado nem uma vez sequer, o que diz muito. O COI era muito pior sob o comando de Juan Antonio Samaranch (morto em abril deste ano), que presidiu a entidade de 1980 a 2001. Ele era um fascista e o fascismo é, além de tudo, uma pirâmide de corrupção. Samaranch trabalhou ao lado do generalíssimo Franco. Essa cultura franquista e fascista se transformou em uma cultura gângster.

A corrupção no COI diminuiu com a saída de Samaranch?
Vou ilustrar com uma história. No meu site publiquei uma foto de Blatter cumprimentando um mafioso russo, em 2006, em um encontro com dirigentes do país. O russo foi quem fez o esquema em Salt Lake, na Olimpíada de Inverno de 2002, para que os conterrâneos ganhassem o ouro em patinação artística. Pois bem, Blatter, Havelange e muitos outros da Fifa são parte do comitê do COI. Essa é a dica de como a Rússia está agindo para sediar a Copa de 2018.

Foi assim que o Brasil conseguiu a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016?
Na votação em Copenhague, que deu a sede olímpica para o Rio de Janeiro, o nível de investigação jornalística foi ridículo, só víamos a praia de Copacabana com o povo feliz. Há um grupo no COI que já foi denunciado por receber propina no escândalo da ISL – e quem acompanha a entidade sabe quem eles são. Os dirigentes dos países só precisam pagar umas seis ou sete pessoas para conseguir o voto. Existe, com certeza, uma sobreposição entre os métodos da Fifa e do COI. Mas a cultura das duas entidades não é tão estrita quanto à de uma máfia, é mais como se fossem máfias associadas, apoiadas umas nas outras. Coca-Cola, redes de fast-food, Adidas, você acha que essas companhias não sabem o que está acontecendo? Eles não são estúpidos. A cara de pau é tamanha que Jacques Rogue, presidente do COI, disse em Turim, em 2006, que o COI e o McDonald’s compartilham os mesmos ideais. Será que ele não sabe quanto a obesidade infantil é um problema gravíssimo em vários países? Ou faz parte do jogo ceder a esses interesses?

Fonte: O Estado de São Paulo

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Alcides Ghiggia: "O Uruguai vai longe"


O uruguaio Alcides Ghiggia é dono de uma história de vida impressionante. Foi ele quem marcou o gol decisivo da final da Copa do Mundo da FIFA de 1950, no Maracanã. Hoje, aos 83 anos, ele mal lembra aquele jovem que protagonizou o famoso "Maracanazo". Mesmo assim, 60 anos depois, o ex-atacante continua sendo homenageado. Ele esteve na África do Sul para receber a prestigiosa Ordem do Mérito da FIFA. Durante o evento, teve de dedicar alguns minutos a um ritual inevitável: aceitar cordialmente os pedidos de todos os jogadores da seleção uruguaia para tirar fotos ao seu lado.

Em seguida, o ex-craque, considerado uma lenda viva do futebol uruguaio, deu uma entrevista exclusiva ao FIFA.com. Durante a conversa, ele opinou sobre os rumos da África do Sul 2010, falou sobre as opções do Uruguai e contou as melhores recordações que tem da final de 1950.

Sr. Ghiggia, em primeiro lugar, parabéns por ter recebido este prêmio. O que o senhor sente neste momento tão especial?
Eu me sinto muito emocionado. Este prêmio significa muito para mim, foi algo que eu não esperava. Acho que poucas pessoas receberam a Ordem de Mérito, foi algo que me pegou de surpresa. Receber uma medalha e um troféu a esta altura da minha vida é algo muito emocionante. Não sei bem como explicar o que sinto, foi a melhor forma de reconhecimento que eu poderia ter. Não preciso de mais nada, foi como fechar um ciclo.

O senhor aproveitou a ocasião para assistir aos jogos?
Assisti a quase todas as partidas e posso dizer que não há nenhuma seleção que se sobressaia em comparação com as outras. É um torneio muito equilibrado, com menos gols do que o esperado. Os grupos estão se focando demais no setor defensivo, e por isso acho que teremos um Mundial estranho. Sim, acho que esta palavra é adequada para descrever esta competição.

O que o senhor acha da campanha que o Uruguai vem fazendo até agora?
O que eu posso dizer? Acho que os uruguaios estão se saindo muito bem. Eles fizeram uma grande partida contra a França, que é ex-campeã mundial, e conseguiram um bom empate na estreia. Depois golearam a África do Sul com uma atuação excelente e voltaram a conquistar uma vitória diante do México. Não poderiam ter feito melhor.

Se olharmos para a vitória sobre a África do Sul, poderemos ter a sensação de que os uruguaios são mais fortes quando jogam como visitantes. O senhor concorda?
Sim, claro, isso é algo que faz parte de todo jogador uruguaio. Quando a situação é mais difícil, quando tudo joga contra, o espírito de equipe se sobressai. Chamamos isto de "garra charrua", é algo que tem um papel importante nos momentos complicados.

Há pouco vimos todos os jogadores da seleção uruguaia tirando fotos com o senhor. Qual deles mais o surpreendeu em campo?
Não sei, é difícil falar de um só. Todos tiveram um ótimo desempenho na fase de grupos. (Diego) Forlán e (Luis) Suárez são os que marcam os gols, mas este grupo também tem um grande meio-campo e uma defesa sólida. Não vai ser fácil para ninguém ganhar do Uruguai, disto eu tenho certeza.

O técnico Óscar Tabárez já treinou o Uruguai em outra Copa do Mundo da FIFA. Qual é a importância que ele tem à frente do grupo?
Ele é muito importante! Tabárez sabe como as coisas funcionam e sabe comandar a seleção da melhor forma possível. Acho que essa experiência está sendo muito valiosa para ele. Converso bastante com ele sobre tática, esquemas e sobre o jogo em si. É impressionante como o futebol mudou com o tempo. Agora não há muito tempo para pensar, há muita pressão e o jogador é obrigado a decidir o que deve fazer um segundo antes de receber a bola. A marcação é muito mais forte.

Neste contexto, até onde o Uruguai pode chegar?
O destino é quem dirá, mas acho que irá longe. Não sei o que acontecerá nos próximos jogos, mas, pelo que vi até agora, poucas seleções mostraram todo o seu potencial. Talvez elas mostrem nas próximas partidas, mas acima de tudo acredito que o Uruguai vai dar o que falar.

Em breve, você poderá assistir à entrevista exclusiva em versão completa com Alcides Ghiggia. Nela, ele conta os melhores momentos da Copa do Mundo da FIFA 1950 e do famoso "Maracanazo". Não se esqueça de visitar a seção Campeões Mundiais!

Fonte: Fifa.com