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domingo, 29 de agosto de 2010

Gino, Tanque de Guerra, Arma Mortífera! por Dr. Catta Preta



 
Gino, Tanque de Guerra, Arma Mortífera!


Gino Orlando nasceu em 03/09/29. Paulistano da gema, Gino cresceu assistindo ao esplendor do futebol em São Paulo.

A juventude de Gino Orlando foi uma juventude de delírio futebolístico.

Sim, porque os anos 40 foram anos poéticos para o futebol paulista. Gino, aquele jovem de dezesseis, dezessete anos, ia ao Pacaembu ver os shows de Leônidas, Bauer e Sastre, que ganhavam tudo pelo São Paulo, Gino ia ver Oberdan, Villadoniga e Lima envergando a camisa do Palmeiras, Gino assistia embevecido aos shows de Domingos da Guia, de Servílio e de Hércules pelo Corinthians.

Gino, como tantos adolescentes e jovens daquela época de ouro, queria ser jogador de futebol.

Aos vinte anos, ele procurou o Palmeiras. Corria o ano de 1949, ele tinha vinte anos, o Palmeiras era mais perto da casa dele, amigos o influenciaram a procurar o clube esmeraldino, alguém o levou ao Parque Antarctica para treinar, hoje um jogador se profissionaliza aos dezesseis anos, naquele tempo se descobria uma craque aos vinte, vinte e dois anos, ou mais...

Gino, como tantos, jogava na várzea.

Nos campos da várzea paulistana, seu nome vinha crescendo, naqueles tempos era na várzea que se forjavam as pérolas da bola, na várzea os craques proliferavam.

De Gino se dizia o seguinte: é um tanque de guerra, é uma arma mortífera de fazer gols!

O Palmeiras o acolheu. Mas o Palmeiras era uma plêiade de grandes astros experimentados. Gino foi aprovado, assim como seria aprovado Dino, sim, Dino Sani, “Il Signore Sani”, que era seu grande amigo e parceiro de várzea.

Mas, mal aproveitados, ambos foram emprestados ao XV de Jaú. No interior, ele e Dino transformaram-se em sucesso, chamaram a atenção, mas o Palmeiras os ignorou.

Gino e Dino foram então para o extinto Comercial da Capital e no Comercial seguiram fazendo furor enquanto o Palmeiras contratava craques já formados para enfrentar o imbatível São Paulo de Remo e Cia.

E foi justamente o Tricolor Paulista quem deitou vistas sobre os inseparáveis amigos, Gino e Dino.

O São Paulo tinha um time envelhecido, queria renovar, contratou os dois.
Gino custou ao São Paulo, em 1952, a bagatela de Cr$ 300.000 cruzeiros, Dino viria dois anos depois e custaria ainda muito menos.

Sem ganhar o Campeonato Paulista desde 1949, ano do encerramento da carreira do inesquecível Leônidas da Silva, o São Paulo, aos poucos, foi refazendo seu time e, em 1953, armou um novo esquadrão, que sacudiu o país.

Tudo era novo no Tricolor.

Poy, o lendário goleiro argentino, iria marcar época, Mauro Ramos de Oliveira, o grande Mauro, o zagueiro elegante, iria solidificar seu nome, Maurinho, a flecha, iria despontar, Albella, o argentino ponta de lança faria estremecer os adversários, Pé de Valsa, o médio bailarino daria espetáculo e Gino, o tanque de guerra, a arma mortífera, passaria a ser o motivo da insônia dos rivais.

Sim, pois Gino era um destruidor de defesas!

Gino, lançado pelo técnico Vicente Feola, estreou num “Majestoso”, no Pacaembu, em 12/03/53, pelo Campeonato Paulista, e o São Paulo perdeu por 3 x 2. O menino não tremeu, encarou a defesa corintiana, duelou, trombou, dividiu, a torcida sentiu que aquele garoto vinha com uma sede de gols que dava gosto...

Na semana seguinte novo clássico, o Choque-Rei, no mesmo Pacaembu, e uma fragorosa derrota por 4 x 0.

Estremeceram-se as bases mas, Feola, o grande pai, o técnico bonachão e multi-vencedor,  manteve o jovem time para as partidas subseqüentes.

Feola, dez dias depois, fez um amistoso contra o Atlético Mineiro, havia tempo para amistosos, o jogo foi no Estádio Independência em Belo Horizonte, não havia Mineirão, e o São Paulo ganhou por 3 x 0. O primeiro gol foi de Gino, um gol de insistência, depois de um demorado perde e ganha, depois de dividir a bola três vezes com um zagueiro do galo.

Gino Orlando, a máquina mortífera, nunca mais sairia do time.

Gino, aquele insistente, aquele obcecado pelo gozo de ver a bola no fundo do gol do adversário, passou a ser a esperança de gols da torcida são-paulina. 

Gino tinha fome de gols, a alegria de Gino era ver a rede balançando, ele não 
era habilidoso, não! Longe disso! Mas era um goleador espetacular. Em entrevista a uma rádio paulista alguém, desinformado, perguntou a Gino, nos primeiros dias de sua saga de glórias, se ele gostaria de jogar um pouco mais recuado e ele respondeu: “Não! “Quero jogar de artilheiro, meu negócio é fazer gols”!

Gino iria marcar época no São Paulo FC.

Já em 1953, ano de sua estréia, ele arrebentou. O Pacaembu ficava em solene suspense até os últimos momentos de qualquer jogo do Bem Amado; o tanque de guerra, a arma mortífera, podia decidir e levar o São Paulo à vitória com uma cabeçada, com uma trombada, com um gol mágico, tirado da cartola quando ninguém mais esperava.

Ai dos beques se vacilassem, o homem era um perigo!

Gino virou ídolo.

O São Paulo foi Campeão Paulista de 1.953 vencendo o Santos, por 3 gols a 1 em plena Vila Belmiro, Gino não fez gols mas incomodou, brigou, guerreou, chamou a atenção, abriu espaços, encantou. O jogo final aconteceu em 24/01/54; erra, portanto, quem diz que houve outro “Campeão do Centenário”, pois o primeiro campeão do ano de 1954, ano do quarto centenário de São Paulo, foi o São Paulo FC, embora o título se referisse ao ano anterior!

Ouviram, iguais?

O primeiro campeão do ano de 1954 foi o São Paulo de Gino!

Espalhem!

E Gino Orlando foi se acostumando com a responsabilidade de vestir a camisa das três cores mais lindas do mundo, era como se tivesse começado no São Paulo.

Gino não tinha medo de nada, zagueiro nenhum o parava, Gino desbravava a área como um saqueador, era implacável. Desandou a marcar gols.

Houve um período difícil na vida São Paulo. O time sofreu várias mudanças, o projeto Morumbi começou a ser implantado, dinheiro só era gasto com muita parcimônia, era em Gino que se concentravam as esperanças de nossos gols.

E ele não decepcionava. “Gooool de Ginooo”, gritavam os narradores do rádio!

O São Paulo era Gino, o tanque de guerra, a arma mortífera, e mais dez.

O povo pediu e Gino foi à seleção.

Em 1956, em partida inesquecível, no histórico Estádio do Vale do Jamor, em Portugal, Gino assombrou o mundo e fez, de bicicleta, o gol que deu a vitória ao Brasil por 1 x 0. Sim, de bicicleta!

O Brasil nunca havia vencido uma Copa do Mundo, aquela vitória na Europa e aquele gol da “arma mortífera”, Gino, o transformaram de vez em celebridade, Gino passou a ser o craque de todas as torcidas, o vingador, o herói da área.

O São Paulo foi crescendo em torno de seu artilheiro. Dino, o eterno companheiro, era o dono do meio campo, surgiu Canhoteiro, o maior ponta-esquerda que o mundo conheceu, depois veio Mestre Ziza e o Tricolor, em 1957, destruiu a parceirada, sem dó.

Ninguém podia com aquele timaço de Poy, De Sordi e Mauro, Dino, Victor e Riberto, Maurinho, Amauri, ele, Gino, a máquina mortífera, Zizinho e Canhoteiro.

Em memorável vitória, o São Paulo bateu o Corinthians, no Pacaembu, por 3 x 1, e sagrou-se Campeão Paulista daquele ano sagrado e antológico.

Claro, nos meados dos anos 50 Zizinho foi rei, Dino foi gênio, Mauro foi estrela impecável, mas Gino era a garra, era a esperança do gol, era a referência da área, era o verdadeiro pesadelo dos adversários!

Alfredo Ramos, um lateral-esquerdo espetacular chamado de “polvo” pela torcida tricolor e que brilhara no time até o final da década de 40 como reserva de Noronha, se transferira para o abominável rival, o Corinthians.

Em 1957, ano de glória são-paulina, Alfredo, o “polvo”, num lance infeliz, em jogo contra o próprio São Paulo, em um “Majestoso” perdido na noite dos tempos, quebrou a perna.

Atribuiu a torcida corintiana a Maurinho, nosso velocíssimo ponta-direita, a fratura do bom Alfredo. Um ambiente tenso e belicoso estabeleceu-se no ano de 1957 entre torcidas e jogadores de São Paulo e Corinthians.

Gino, nosso implacável artilheiro, entrevistado, defendeu Maurinho, atribuiu à má sorte a contusão do “polvo” e disse que futebol era para homem, que acidentes aconteciam.

Vou contar a vocês um episódio histórico, vou contar o que ninguém jamais contou com precisão.

Prestem atenção, iguais.

Alfredo Ramos morava na Rua Felipe Cardoso, no Bairro do Jardim da Saúde, em São Paulo.

Alfredo, o “polvo”, era simpático aos são-paulinos mas os corintianos não se conformavam com a contusão dele e com as declarações de Gino.

Ocorreu que o elenco corintiano foi visitar o convalescente Alfredo Ramos em sua casa, na referida Rua Felipe Cardoso, e, no mesmo dia, vários jogadores do São Paulo também tiveram a mesma idéia.

Os rivais se encontraram. Naquele tempo os craques amavam as camisas que vestiam, o futebol era amadorístico e maravilhoso!

Luizinho, o “Pequeno Polegar”, o maior ídolo corintiano, estava irado, só dava São Paulo, o Corinthians era freguês!

Ao avistar os atletas são-paulinos que saíam da casa de Alfredo, na Rua Felipe Cardoso, justamente no momento em que os corintianos chegavam, Luizinho não teve dúvidas, colheu do chão um tijolo e arremessou-o contra Gino atingindo-o na testa!

Foi uma guerra.

Até hoje os mais antigos moradores do bairro do Jardim da Saúde comentam esse acontecimento.

A decisão do Campeonato Paulista de 1957, entre São Paulo e Corinthians seria vivida depois, imaginem sob que clima!

Gino, nosso personagem, foi execrado pelo “bando de loucos” e idolatrado de vez pela torcida do “Mais Querido”. Não são raras as fotos da época que mostram o “tanque de guerra”, a “arma mortífera”, Gino Orlando, com a testa envolta em um grande esparadrapo, balançando as redes...

Gino foi, e é, um símbolo do São Paulo FC.

Naquele tempo se jogava menos, o número de jogos era infinitamente menor mas, mesmo assim, Gino é, até os dias que correm, o segundo maior artilheiro da história do clube.

Gino, o tanque, a arma mortífera, fez maravilhosos 237 gols com a sacrossanta camisa das três cores mais lindas do mundo, entre os anos de 1953/62, só perde para Serginho Chulapa.

Gino participou do jogo de inauguração do Morumbi, em 1960 e, sabem de uma particularidade? Foi de Gino a primeira bola que bateu na trave em nosso Templo sagrado. Aos 43 minutos do 2º tempo do jogo entre São Paulo x Sporting, Gino carimbou a trave pela vez primeira. A torcida lamentou, queria que o seu goleador-mor, a arma mortífera, o tanque de guerra, pesadelo dos adversários, fizesse o gol...

Gino era um valente em campo. Técnica? Nada de técnica, Gino era um craque destemido, era um briguento que queria a bola, ninguém, nenhum zagueiro, jamais o assustou; ao contrário, enfrentar Gino causava paúra nas defesas inimigas.

Fora de campo, Gino Orlando era um gentleman. Correto, Gino era um homem com H maiúsculo. Um dia Luizinho, o “pequeno polegar” corintiano, se desculpou publicamente com ele por tê-lo ferido no lamentável episódio do Jardim da Saúde. Gino recebeu as desculpas, abraçou o craque do alvinegro, perdoou; só os grandes espíritos sabem perdoar. O gesto de Gino foi magnífico.

Gino, depois de encerrar a gloriosa carreira como colecionador de gols de todos os tipos, permaneceu dedicado ao São Paulo FC, o São Paulo reconheceu nele uma alma tricolor.  Gino foi ser o “Prefeito do Morumbi”, administrou com inigualável competência o estádio até o dia de sua morte, em 24/04/03, ninguém conhecia mais o “Cícero Pompeu de Toledo” do que o “seu Gino”.

Convivi com o Gino no Morumbi, na época em que ele administrava o estádio. Gino era doce, equilibrado, modesto, era educado, dele ouvi muitas histórias, pessoa humilde, atendia a todos com a mesma educação e simplicidade. 

Nem parecia que ele fora um ídolo amado, maiúsculo, gigantesco, inesquecível, da história do Mais Querido.

Gino é um imortal astro da epopéia são-paulina, essa epopéia tão farta de exemplos edificantes. Gino foi um bravo, foi um lutador, foi uma legenda. Gino foi um devastador de defesas, foi um executor implacável de goleiros, foi um tormento para os adversários, um pesadelo, ele era letal na área.

Gino é para sempre, são-paulinos! Gino Orlando, artilheiro destemido, fantasma dos rivais, tanque de guerra na área, arma mortífera!

Camisa 9  inesquecível, uma lenda, Gino Orlando foi “o cara”. Nunca será olvidado.

Ave, Gino!

Paz, meus iguais.

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.

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antoniocattapreta@yahoo.com.br

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Raí, o Terror do Morumbi por Dr. Catta Preta


 
Raí, o Terror do Morumbi.


Raí Souza Vieira de Oliveira nasceu em Ribeirão Preto, assim como eu. Raí nasceu aos 15/05/65, eu nasci na década anterior.
O São Paulo quis muito contratar o irmão mais velho de Raí, Sócrates, mas, quiseram os fados e a pasmaceira de alguns dirigentes do São Paulo nos anos 70, que Sócrates fosse para o Corinthians e Sócrates marcou época no arqui-rival são-paulino.
Sócrates surgiu no Botafogo de Ribeirão Preto, era alto, esguio, magro, tinha habilidade e classe, parecia para os Oliveira que Sócrates, depois de uma performance brilhante na história do Futebol e na antologia das genialidades, encerraria o ciclo do estrelato na família . Uma família só tem um gênio, nunca se viu dois gênios surgirem na mesma família. Eu nunca havia visto gênio filho de gênio, irmão de gênio igual a irmão gênio.
 Nunca vira, mas vi! A família Oliveira era pródiga e inédita!
Estou para ver outra vez...
Na esteira do grande Sócrates, no calcanhar do irmão, vinha um menino educado, atlético, determinado, galã, que seria a reedição do mano mais velho, reedição melhorada, se é que se podia melhorar aquele parâmetro extraordinário de excelência.
Se Sócrates era boêmio, não usava o preparo físico, usava o calcanhar, se era frio, se pouco comemorava os gols que fazia, se jogava no Corinthians enquanto o coração era santista, Raí apareceu para jogar no Botafogo anunciando que era são-paulino, era todo atleta, se preparava, tinha um perfil absolutamente contrário.
O São Paulo, depois de perder Sócrates iniciando a carreira de astro, por inabilidade, não podia perder Raí. E não o perdeu. Custasse o que custasse, aquele menino, irmão do sol, quando apareceu brilhando em Ribeirão Preto fazendo gols, iria ser nosso!

O São Paulo apostou em Raí. Ele era uma criança, ingênuo, um jogador pesado, alto, meio desengonçado, mas fazia gols e era irmão do Sócrates!
A aposta, no começo, parecia perdida. A Raí, o grandão, faltava habilidade, irmão de craque era perneta, diziam as más línguas!
A torcida do Corinthians duvidava, o mundo duvidava. Poderia aquele menino, irmão do Sócrates, virar alguma coisa?
Contar-lhes-ei, iguais.
Raí fora emprestado pelo Botafogo, de Ribeirão Preto, à Ponte Preta. No Botafogo fizera gols, parecia impetuoso, na Ponte então, desandou a marcar, chamou a atenção. Então o São Paulo, como gato escaldado com medo de água fria, por causa da sempre lembrada perda de Sócrates, foi atrás dele e o trouxe para o Morumbi. Deixar Raí ir para o Corinthians, como o célebre irmão, seria o fim.
Se querem que eu revele a verdade, dir-lhes-ei que nem mesmo eu acreditei em Raí quando ele chegou. Ombrear-se a Sócrates?
A voz do povo é implacável, ombrear-se a Sócrates nunca, Raí era uma farsa!
Então, o menino foi se adaptando.
No princípio colocaram Raí para jogar como centro-avante. Alto, vigoroso, deveria afrontar os zagueiros, iria chocar-se com eles.
A estréia de Raí foi no Olímpico, em Porto Alegre, em outubro de 1987, contra o Grêmio, o São Paulo foi derrotado por 1 x 0.
Cilinho era o técnico do Mais Querido, Cilinho, esse feiticeiro da bola, viu no menino qualidades, apesar da derrota.
Fui ver Raí no Morumbi, pela primeira vez, contra o Santos, em clássico pelo campeonato Brasileiro de 1987, um jogo depois da estréia.
O São Paulo ainda tinha Silas, Muller, Pita, o time era hábil na frente.
Raí, meio tímido e sem ginga, tinha consciência, não errava passes, embora de costas para o gol, me chamou a atenção. O São Paulo venceu por 3 x 1 e pensei comigo mesmo, será esse menino um predestinado como o irmão?
Era.
Raí era mais do que um predestinado, Raí nascera para brilhar intensamente, era uma personalidade do mundo da bola, era um gênio, era um craque inesquecível que desabrochava!
Em seu segundo jogo no Morumbi, contra o Goiás, na semana seguinte, Raí faria seu 1º gol e nunca mais deixaria de cintilar.
Raí caiu rapidamente nas graças da torcida Tricolor.
Tinha porte, era alto, decidido, Raí ia na bola com força, com raça, dividia todos os lances, parecia um anjo da guarda da camisa das três cores. A torcida logo se apaixonou por ele.
Claro, houve aqueles que disseram que o menino destoava dos “Menudos”, já em sua última fase; os “Menudos”, nome dado ao time são-paulino da metade dos anos 80, os “Menudos” eram muito ágeis e velozes, Raí era mais lento, mais cerebral.
Mas seria o fim da era dos “Menudos” e o começo da era Raí.
Quando o sonho dos “Menudos” acabou, começou o império de Raí; Raí aos poucos foi se transformando no símbolo do São Paulo, o porte de Raí anunciava por si só uma era de conquistas, aquele jogador, com a sua postura ímpar, insinuava que o São Paulo  ganharia o mundo!
Raí era articulado, educado, fino, um gentleman. Raí era um esportista. Entrevistar Raí, para a imprensa era uma dádiva.
Ele, perdendo ou ganhando, se mostrava um cavalheiro, ele foi, a pouco e pouco, se transformando na maior referência do futebol brasileiro, aquele nobre jogador parecia que jogava de smoking!
Raí foi crescendo, foi se transformando num gigante. Ao contrário do irmão, Sócrates, o anti-atleta, a quem a bola amava de paixão, Raí foi dando exemplos de dedicação, de entrega à profissão, de sacerdócio em nome da bola. Sócrates era o boêmio, o poeta, Raí era o devotado, o cumpridor.
Claro, dona bola, que não resistira ao boêmio, também não resistiu ao devoto. A bola é mulher. As mulheres amam tanto os poetas e os boêmios loucos quanto os dedicados fiéis e os disciplinados amantes.  
Raí fez da profissão de atleta devoção. Então, Raí e a bola, selaram uma união que a história marcou e que muitos vão recontar, ao longo dos séculos.
Raí oscilou, foi para a reserva entre 1987 e 1988, em 1989 ora era atacante, ora era meia, mas todos confiavam nele. Raí encarnava, com sobriedade, o jeito do São Paulo…
Foi nos anos 90 que a bola rendeu-se de uma vez por todas.
Apaixonada pela dedicação de Raí a bola se entregou a ele e ele se tornou de vez a referência do São Paulo moderno.
Se Leônidas nos transformou, nos anos 40, num time grande e se o Morumbi nos deu a afirmação como patrimônio para que nos mantivéssemos vivos, Raí nos deu o perfil dos torcedores que somos nos dias que correm; elegantes, vencedores, inteligentes, sóbrios, diferenciados.
Raí foi a personificação do cavalheirismo. Não vi em campo ninguém mais elegante, ninguém mais educado, ninguém mais sereno.
Naqueles anos 90, quando tive a oportunidade de ser advogado de um jogador do São Paulo, talvez o primeiro advogado de um jogador de futebol para tratar de seus assuntos com o clube, senti a influência que, nos demais do elenco são-paulino, exercia a multifária personalidade de Raí.
Raí era o paradigma, Raí era o líder, Raí era o elo entre o técnico e o elenco, entre a diretoria e os atletas.
E Raí amadureceu como jogador. Se o irmão, Sócrates, havia sido gênio, Raí foi melhor! Raí não foi gênio, mas para o futebol, Raí foi melhor do que ter sido gênio!
Raí operou prodígios com a sacrossanta camisa das três cores!
Raí foi um colecionador de títulos: 89, 91, 92, 98 e 2000 foi Campeão Paulista. Em 91 foi Campeão Brasileiro.
Em 1992/93 foi Bi-Campeão da América e foi Campeão do Mundo pelo São Paulo, em 92!
Nenhum são-paulino poderá se esquecer de Raí; Raí é uma lenda, seu nome correrá, de pai para filho, até o fim dos tempos.
Eu estava no Morumbi em certo dia santo, em determinada tarde perdida nas brumas do tempo, num “Majestoso” poético de 1991, eu e mais 100.000 pessoas, quando Raí estremeceu o Morumbi, fazendo 3 gols no Corinthians do atônito goleiro Ronaldo, proporcionando às hostes tricolores uma das maiores vitórias contra o rival, uma vitória clássica, um show que a nossa memória registrará para todo o sempre.
Eu vi Raí comandar o São Paulo em campo, eu vi o jeito de Raí, Raí foi a cara do São Paulo que no início dos anos 90 foi transformado em frenesi pelo povo, eu vi Raí fazer o São Paulo popularizar-se. Os meninos, as meninas, as moças e os moços, todos se fizeram são-paulinos na década de 90, acima de tudo, por causa de Raí.
Eu vi o São Paulo fazer o Palmeiras cair de quatro, à mercê de Raí, vi o Santos naufragar de 6, sob a batuta de Raí, vi o São Paulo, pela primeira vez, conquistar a Libertadores com música no ar e o maestro da sinfonia da bola era Raí, já fixado como ponta de lança, vindo de trás com o ímpeto de um corcel bravio, com a força incontrolável de um trator. Raí chutava de longe, não temia chutar a gol, cabeceava muito bem, era alto, aparecia de surpresa na área e subia com vontade e estilo. O craque fez muitos gols de cabeça e inúmeros gols arremessando a bola de longe, como se fosse uma flecha certeira. Raí cobrava pênaltis e faltas, era completo, não?  Foram duas Libertadores, sob a mística dos pés de Raí, e foram dois mundiais, sim dois MUNDIAIS, 1992/93, que Raí, com sua personalidade e com a exuberância de seu futebol nos deu!
No inédito Mundial de 1992, contra o Barcelona, no Estádio Nacional de Tóquio, Raí tornou-se o maior jogador de futebol do mundo.
O São Paulo enfrentou o fantasma europeu, o Barcelona, como sempre, o Barcelona parecia imbatível.
Raí comandou o São Paulo, que venceu de virada o invencível Barcelona, com personalidade única.
Raí, depois de liderar o time em campo com jeito de imperador, depois de dar show o tempo todo, com passes perfeitos e frieza incomodativa, empatou o jogo com um gol de peito, com um gol de coração, mergulhando na pequena área, como se estivesse numa piscina. E a poucos minutos do fim, cobrando falta, Raí deu um beijo na bola, colocou a bola no ângulo de Zubizarreta, o goleiro de nome longo, que viu a bola de longe, que flerta e tem pesadelos com aquela bola, até hoje...
Em 1993, de novo Raí deixou o Brasil aturdido. Comandou o São Paulo levando o Tricolor ao bi-campeonato da América, fazendo tremer os adversários caseiros e multiplicando nossa torcida por três.
O São Paulo já não era mais de Leônidas, de Sastre, de Bauer, de Dias, de Gerson, de Pedro Rocha, o São Paulo era também de Raí e a torcida reverenciava o ídolo, sentenciando a escolha do ídolo maior em coro, com um cântico que soava altissonante nas arquibancadas: “Raí, Raí, o terror do Morumbi”!
O que ganhara o gênio Sócrates, o irmão de Raí? Um mero campeonato paulista. Raí, no entanto, ganhava tudo; Sócrates, diante da história, passou a ser só o irmão de Raí. O São Paulo de Raí popularizava-se, renascia.
Não vou entrar em minúcias quanto a Copas do Mundo. Ambos, Sócrates e Raí, jogaram também Copas do Mundo, claro. Jogador histórico é o que disputa Copa do Mundo.
Em meados de 1993, depois de conquistar a América pela segunda vez, Raí foi embora. Despediu-se no templo sagrado do Morumbi com uma atuação de gala, numa noite de magia em que o São Paulo, pelo Campeonato Paulista, fez deliciosos 6 x 2 no Santos. Ele fez o último gol, o sexto, um gol antológico, por cobertura, inesquecível, eu vi, eu estava lá, por mercê de Deus.
Raí brilhou intensamente no futebol francês, onde foi jogar no Paris Saint Germain. Com sua nobreza, com sua educação, com sua classe, Raí parecia que tinha nascido em Paris. O Paris Saint Germain não ganhava havia muitos anos, Raí levou o time ao título, foi uma festa secular, o povo bebeu champagne sob o Arco do Triunfo, dizem que Victor Hugo sorriu em seu caixão dourado.
Raí virou celebridade na Europa. Todos se curvaram diante de sua nobreza. Raí tinha um jeito de barão, Paris e as belas parisienses o seguraram nos palácios de Saint Germain de Prés até 1998, quando o coração fê-lo dobrar a página européia para disputar a última batalha em campos brasileiros, com a camisa que o consagrara, a sacrossanta camisa das três cores.
Estavam em jogo as finais do Campeonato Paulista de 1.998.
São Paulo e Corinthians iriam fazer uma “melhor de três” para decidir quem seria o campeão.
Raí, diante de 90.000 pessoas, repatriado pelo São Paulo, deu aos são-paulinos uma alegria suprema.
Os corintianos o julgavam acabado, diziam-se campeões. Mas Raí destruiu o Corinthians, voltou ao Morumbi como se estivesse sendo chamado para uma guerra, parecia Napoleão, comandando o exército Tricolor.
Foi dele o primeiro gol, ele participou do segundo, Denílson também brilhou, o São Paulo fez 3x1 e sagrou-se campeão. A cidade nunca mais vai ser tão são-paulina como foi naquele 10 de maio de 1998.
Raí, nos ombros do povo, aquele Adônis para as mulheres, aquele anjo vingador para os homens, encerrava a carreira, vestindo o manto maravilhoso que foi de Ruy, de Bauer, de Noronha, de Rocha e de tantos outros. Era o fim de uma lenda dentro das quatro linhas.
Ora, o que mais dizer sobre esse craque, iguais?
Raí foi um jogador de todos os tempos.
Volúpia, arranque, força, liderança, inteligência.
Raí era um moderador do São Paulo. Se Raí jogasse bem o São Paulo ganhava, se Raí jogasse mal o São Paulo perdia.
Raí quase sempre jogava bem. Então o São Paulo sempre ganhava!
Raí iniciou para os são-paulinos uma era de grande popularização nos tempos modernos. A torcida feminina do São Paulo cresceu assustadoramente. Ver Raí, para as mulheres, era tudo.
Raí, com seu comportamento inigualável, evocou, nos tempos modernos, o São Paulo mais antigo, o São Paulo da cepa, o São Paulo oriundo do Paulistano, o São Paulo dos nobres. Raí é como Fried, é como Leônidas, é uma marca do Mais Querido.
Eis um nome do qual jamais me esquecerei. Tenho certeza de que os adversários também jamais se esquecerão de ti, Raí, “O terror do Morumbi.
A torcida do São Paulo FC, claro, jamais te olvidará!
Ave, Raí e Paz, meus iguais.

Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.
Siga: @catta_preta on twitter 

 


































Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.
antoniocattapreta@yahoo.com.br
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terça-feira, 11 de maio de 2010

Zé Sérgio - Um furacão por Dr. Catta-Preta




Zé Sérgio, Um furacão.
Esquadrinhando novas e velhas antologias tricolores, como faço cotidianamente, descobri que há vários jogadores injustiçados pela nossa ainda pobre literatura.
Quero tirar um nome das brumas cinzentas do esquecimento. Quem viu jogar esse personagem da bola viu e se deleitou profundamente, quem não viu perdeu. Ah, como perdeu!
Em 1957 o São Paulo ganhava um título histórico, o então charmoso Campeonato Paulista. Aquele ano foi um ano tricolor, um ano de Canhoteiro, um ano de Gino, um ano de Dino Sani e, sobretudo, um ano de Zizinho, o “mestre Ziza”.
Pois foi nesse santo ano de 1957, ano de glória do Bem Amado, que nasceu, em São Paulo, na Capital paulista, o menino José Sérgio Presti.
O Zé da família Presti veio à luz enquanto o primo Roberto já começava a dar os primeiros passos no mundo da bola, o primo Roberto ia ser craque, ia por a torcida a seus pés. Zé Sérgio cresceu vendo o primo deslumbrar o Brasil, logo Roberto passou a ser chamado pelo sobrenome: Rivellino.
Rivellino começou criança no futebol de salão, no EC. Pinheiros, foi lá que “Riva” aprendeu a dar seus dribles curtos, seus humilhantes elásticos, foi lá que aprendeu a soltar bombas com seu inigualável pé esquerdo que assombraria mais tarde os goleiros do mundo inteiro.
Zé Sérgio admirava o ilustre primo e, criança atenta, queria igualá-lo. É assim a vida, os bons exemplos na família são, para os mais jovens, como um lume na escuridão.Zé Sérgio não teve uma infância pobre como a maioria dos jogadores de futebol, Zé Sérgio convivia com uma família de classe média alta, estudava, os pais queriam que ele fosse médico, engenheiro, economista, advogado, mas ele resolveu que também seria craque da bola.
Foi procurar o São Paulo FC, foi ali que começou a sua história de glória, menininho.Cedo se percebeu que se tratava de um atleta absolutamente diferenciado. Zé Sérgio corria, corria, corria como ninguém, ninguém o alcançava quando ele soltava seu impulso inato para a frente, com uma gana que parecia que o alvo de sua corrida era a um tesouro precioso, um tesouro que brilhava como diamante.
O tesouro por Zé Sérgio colimado estava no fundo do campo de futebol. Ele saía do meio-campo e voava até a linha de fundo, como se fosse um pássaro, seus pés tinham asas!A fama de Zé Sérgio, tal qual a sua rapidez, começou a se espalhar. Havia um menino no São Paulo cuja velocidade iria transformar o lado esquerdo do retangular gramado do jogo da bola. O menino era ele mesmo, Zé Sérgio, o primo do Rivellino.
Em 1.976, Zé Sérgio tinha 19 anos. O São Paulo resolveu apresentar sua pérola ao mundo. Zé Sérgio entrou no time e, claro, nunca mais saiu. Era tempo de pontas, eram, na história, derradeiros esses tempos de pontas. Ele era ponta-esquerda. Mas Zé Sérgio, o primo do Rivellino, era um ponta-esquerda totalmente diferente.O Brasil estava acostumado com pontas insolentes, os pontas eram palhaços, driblavam, driblavam, iam à frente e voltavam com a bola nos pés, queriam dar espetáculo, a arte do drible inebriava e ainda inebria a torcida.
Zé Sérgio não era insolente como os pontas que a gente via, Zé Sérgio nem parecia um ponta; os pontas eram quase todos pequenininhos, Zé Sérgio era um menino de estatura média, tinha um porte meio atlético e uma saúde de fazer inveja. Acho que Zé Sérgio reinventou a profissão de ponta no futebol. Zé Sérgio, um achado, era o primeiro sinal da transformação pela qual o futebol iria passar até chegar aos nossos dias.
Todo o ponta-direita naquela época era destro, fazia tudo com o pé direito, seus dribles eram direcionados para o lado direito, assim ele chegava à linha de fundo. O ponta-esquerda, por sua vez, era canhoto, agia da mesma forma que o ponta-direita e driblava para o lado esquerdo até chegar ao fundo para cruzar a bola para a área.Zé Sérgio, o parrudo menino, o primo do Rivellino, nada tinha a ver com essas convenções enraizadas da bola. 
 A maior diferença que o futebol de Zé Sérgio tinha em relação aos demais pontas que jogavam pela esquerda era a seguinte: Zé Sérgio era destro, enquanto todos os outros pontas-esquerdas eram canhotos!Sim, o menino era destro, saía como um bólido com a bola nos pés desde a intermediária e quando se via próximo à grande área ninguém sabia o que iria fazer pois ou prosseguia até a linha de fundo ou, de repente, dava um breque e, com o pé direito entortava o lateral para dentro, colhia-o no contra-pé, (os laterais-direitos só usavam o pé direito) e fazia a multidão ir ao delírio!
A torcida do São Paulo e todas as torcidas foram logo percebendo do que se tratava.Tratava-se de um gênio, de um arauto dos novos tempos!Ninguém parava Zé Sérgio. Zé Sérgio era um frenesi com a bola, era um furacão, um possuído, os laterais tremiam, ninguém conseguia sequer dar pontapés naquele flash, Zé Sérgio era uma ventania que fazia os estádios balançar.Desde a estreia, em certo amistoso, quando em 1976 substituiu Serginho, que então também era ponta-esquerda, Zé Sérgio brilhou intensamente no Tricolor.
Ainda me lembro, eu ia ao Morumbi para ver Zé Sérgio. Era uma alegria. Quando Zé Sérgio arrancava, com sua velocidade frenética, quem se atrevesse a tirar os olhos do gramado e olhasse para as arquibancadas do Morumbi veria um espetáculo deslumbrante, o povo inteiro de pé, a sorrir, acompanhando a ação do craque como se estivesse acompanhando a arrancada de um virtuose do velocismo, como se estivesse vendo a arrancada de um Ben Johnson...
Em 1977, menos de um ano depois de seu aparecimento, Zé Sérgio, já não era mais “o primo do Rivellino”. Não. Zé Sérgio tinha brilho próprio, as pessoas perguntavam, o Rivellino é primo do Zé Sérgio?A carreira desse astro foi meteórica como suas arrancadas em busca da linha de fundo. Zé Sérgio foi campeão brasileiro na épica batalha do Mineirão contra o Atlético, Zé Sérgio passou a ser o ídolo maior do Tricolor do Morumbi, ao lado de Serginho, o anjo demônio.
 A torcida brasileira, encantada e, em uníssono, exigiu que Zé Sérgio fosse convocado para a copa de 1978, na Argentina. Assim foi feito, convocaram-no, mas não o puseram em campo, quase nem no banco ficou. São engraçados os “professores da bola”, se os alunos os ofuscam, eles os segregam, temem parar de brilhar. Com Zé Sérgio em campo o Brasil não teria sido apenas “campeão moral” na Argentina...Zé Sérgio, de quem Rivellino era primo, não esmoreceu, continuou brilhando intensamente.
Uma certa tarde, talvez em 1979, no palco santificado do Morumbi, vi Zé Sérgio em determinado jogo arrancar pela esquerda, desde a intermediária, com a bola presa ao pé direito. Eu estava na arquibancada, sempre foi da arquibancada que vi as maiores façanhas tricolores. Zé Sérgio, o furacão, voava com a pelota submissa e num piscar de olhos chegou, em segundos, ao bico da área; era um contra-ataque do São Paulo, o adversário era a então fortíssima Ponte Preta.
O lateral que o marcava já havia ficado para trás havia muito tempo e então naquele momento vi o astro defrontar-se cara a cara com Oscar, o grande Oscar, capitão da Ponte que depois brilharia intensamente no Clube da Fé.Oscar, com seu carisma, parou na frente daquela ventania como se quisesse hipnotizar o ponteiro mas Zé Sérgio deu-lhe um drible estonteante, seco, para dentro, Oscar ficou inerte, o menino entrou na área soberano, foi até o goleiro Carlos que saía desesperado e recuou a bola, docemente, suavemente, a Serginho que, entrando pelo miolo da área, enfiou uma bomba para fazer o gol da vitória.
 O Morumbi inteiro aplaudiu, de pé, a jogada daquele menino que era a personificação da velocidade do vento.Não vi, juro que não vi, ponta igual a Zé Sergio. Canhoteiro é lenda. Uma vez perguntei ao maior artilheiro da história do São Paulo, Serginho, quem teria sido o maior ponta que jogara com ele. Serginho não pestanejou, respondeu imediatamente: Zé Sérgio!
No início dos anos 80 ouso dizer que Zé Sérgio, ao lado de Zico, era a maior estrela do futebol tupiniquim. Ninguém parava o ímpeto de Zé Sérgio, Zé Sérgio transformara-se em um bólido, um moto contínuo, o ataque do Bem Amado, uma máquina de jogar bola, tinha Paulo Cesar, Renato, Serginho e ele, o furacão, Zé Sérgio. Nada continha aquele ataque fantástico que fez 4 no Palmeiras e 4 no Corinthians em apenas 5 dias. 4 x 0, nos dois rivais.Naquela quadra da história da humanidade, num jogo contra a Alemanha pela seleção brasileira, Zé Sérgio arrebentou com o lateral alemão que o marcava.
 Só Garrincha fez com um lateral o que Zé Sérgio fez contra aquele gringo, mas Zé Sérgio fez o que fez de forma diferente, com objetividade, buscando o gol, aliando força e técnica. Lembro-me de que, naquela tarde, quem narrava o jogo pela TV disse que Zé Sérgio era o maior jogador do mundo!Zé Sérgio iria suplantar o primo em genialidade? Talvez. Tudo levava a crer que Zé Sérgio, na copa de 1982 entraria de vez na galeria dos craques imortais.Nesse ponto lembro-me do mestre e filosofo Michel de Montaigne. Disse Montaigne que ninguém pode considerar perfeita a passagem de alguém pela vida senão depois de examinar seu último ato, senão depois de sua morte.
 É verdade.
A vida não quis que aquele menino se tornasse um jogador que aparece de 1.000 em 1.000 anos.Apanhado em um exame antidoping, Zé Sérgio, assim como o voador Ben Johnson, teve um nocaute em sua carreira. Zé Sérgio ingerira um mero comprimido de Naldecon, daqueles que tomamos para dores de cabeça ou para a cura da gripe, mas a barulheira que fizeram derrubou o garoto.Zé Sérgio era tímido, introvertido, calado, sentiu o golpe, não soube se defender, sucumbiu psicologicamente.Foi uma tragédia. No maior momento daquele ser humano, daquele gênio, a carga da Imprensa, dos adversários, dos invejosos, dos rivais, funcionou como um antídoto para conter seu doce veneno, sua euforia com a bola nos pés, que só atrapalhava os inimigos.
Deu-se um vácuo longo e fatal na carreira da estrela. Na volta, Zé Sérgio começou a se machucar, os deuses da bola, sabe-se lá por que, haviam brigado com ele. Os deuses têm inveja dos mortais que a eles se ombreiam.Retornando com uma ansiedade de quem retornasse à vida depois de morto, Zé Sérgio passou a se contundir com regularidade fatalística. Quebrou a perna, voltou depois de outra espera angustiante, quebrou o braço, nada dava mais certo, estava escrito, os laterais não parariam Zé Sérgio, ninguém pararia Zé Sérgio; quem o pararia seria o destino.
 As parcas, pérfidas deusas gregas que Homero descreveu, tecem os caminhos.A vida é engraçada. Muito engraçada. A torcida então, ah, a torcida esquece...Zé Sérgio foi sendo minimizado, já não se falava mais em seu ímpeto, em sua volúpia, em sua incomparável velocidade, jamais se veria em um campo de futebol um jogador tão veloz, um jogador com uma arrancada tão impressionante e decidida com a bola sob controle.O ponta-esquerda destro, o moto contínuo, o furacão, avis rara do futebol, passou, de gênio a moeda de troca.
Zé Sérgio não foi à copa de 1982, achavam que ele havia acabado, o próprio São Paulo o menosprezou, o cedeu para o Santos, ele foi embora do Morumbi, palco sacrossanto que o havia anunciado ao mundo.Ganhou o título de 1984 pelo peixe, ao lado de Serginho, mas já não era mais candidato ao patamar dos inesquecíveis, nunca mais jogaria uma copa do mundo.Depois foi para o Japão. Mesmo sem o brilho que o fizera ser uma das mais caras esperanças da torcida brasileira deve ter aberto os olhos de muitos e muitos torcedores japoneses.
 Zé Sérgio, de quem Rivellino foi primo, jogou muito.No São Paulo daqueles tempos, era Zé Sérgio e mais dez. Zé Sérgio foi um consagrador de atacantes, para ele, deixar um atacante na cara do gol era como trocar de canal com o controle manual da TV.Nos dias de hoje, em que o futebol é força, é velocidade, Zé Sérgio iria arrasar, oh deuses da bola, será que ainda teremos outro Zé Sérgio?
Acho que não. Zé Sérgio foi um prodígio da bola, produção única, de um tempo que não voltará, jamais.Obrigado Zé Sérgio, você é um imortal.
Ave, Zé Sérgio.
Paz, meus iguais.
Antonio Carlos Sandoval Catta-Preta é advogado e são-paulino.
@catta_preta on twitter

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Careca - por Dr. Catta Preta



CARECA: ALEGRIA, TÉCNICA E PRECISÃO CIRÚRGICA NA ÁREA


Antônio de Oliveira era um centroavante goleador no interior paulista quando nasceu seu filho, Antônio de Oliveira Filho, em 05/10/60. Antônio, o pai, era um cabeceador dos bons, prometia, a família vivia do sonho de ver Antônio consagrado, no Santos de Pelé, no Palmeiras de Djalma Santos, no Corinthians de tanta torcida, no Flamengo, em algum time que brilhasse no futebol brasileiro. O São Paulo FC, na época em que o Antônio fazia seus gols em Araraquara, época em que seu filho nasceu, era apenas um São Paulo que participava dos campeonatos olimpicamente, o São Paulo queria construir um estádio para ser maior do que os maiores.

Antônio de Oliveira deu o seu nome ao filho porque a sua paixão era o futebol, se ele não vencesse o filho venceria; isso ele sentenciou à mulher e aos seus próprios pais, a mulher e os pais eram as pessoas que mais acreditavam em seus sonhos.

Vitimado por contusões fatalísticas, Antônio de Oliveira foi obrigado a abandonar o futebol e seu sonho dourado de ser craque se esvaiu. Deixo por conta da sensibilidade dos meus leitores e iguais a imaginação, pois não sei descrever com palavras esse momento trágico da família dos Oliveira, ao constatar que para Antônio, seu arrimo, o sonho de ser craque havia terminado. Há certas passagens na vida que quem escreve não pode definir, quem lê é que faz a figuração do singelo momento, em sua simplicidade indescritível.

Antônio de Oliveira quase desistiu de tudo, foi um drama, sua família sofreu o pão que o diabo amassou enquanto o menino, o filho, nascido no momento da tragédia, crescia.

Mas, aquele menino era especial.

Futebol? Futebol, que nada! Antônio de Oliveira Filho era uma dádiva da alegria! O menino, desde pequenininho, gostava de fazer a família rir! O seu ídolo era o “Carequinha”, o palhaço do circo e da TV!

“Carequinha” era o rival do antológico palhaço “Arrelia”, que foi o maior dos palhaços brasileiros; “Carequinha” era engraçadíssimo, impagável, e o menino tinha um sonho, a mãe e o pai estavam infelizes e o menino queria ser igualzinho ao “Carequinha”, o rival do “Arrelia”, ele iria fazer a família feliz de novo!

O patriarca Oliveira, sofrido, ele, seu Oliveira, o craque que tinha tudo para ser e não tinha sido, estranhava. Que destino era aquele? Não! Depois do sofrimento do pai, o filho que destino teria, ao procurar aqueles caminhos?
“Carequinha” ia fazendo as suas apresentações domésticas enquanto o pai, o Sr Oliveira, o craque frustrado, ia apresentando a bola a ele. Seu Oliveira tinha uma ligação com a bola que era eterna.

“Carequinha”, por influência do pai, foi se familiarizando com a  pelota. Entre risos e trejeitos para fazer rir, “Carequinha” e a bola foram tomando intimidades, até que se apaixonaram perdidamente, um pelo outro.

“Carequinha” percebeu que com a bola nos pés poderia ser o palhaço que idealizara, poderia ser o “Carequinha” dos circos e da TV, sim, poderia realizar o seu sonho; fazer a família de novo feliz!

Então o menino resolveu transformar a bola em meio para que pudesse trazer luz à família Oliveira, uma família enamorada pelo futebol. Se o pai não tivera sorte, ele, o “Carequinha”, com o seu senso de humor, com a sua alegria, iria transformar os campos em um picadeiro!

Foi rápida a transformação de “Carequinha” a “Careca”. Até o apelido do rapaz mudou num instante, como o estalar de um relâmpago.

O guri engraçado passou a infortunar as defesas dos adversários dos campinhos de várzea de Araraquara, aquele palhaço fazia rir a quem assistia aos jogos de que participava, fazia gols de todo jeito e os comemorava fazendo graça como seu guru, Carequinha!

Muitos são testemunhas, estão vivos! O “Carequinha”, o filho do Toninho, como era chamado o seu Oliveira, fez gols de todos os jeitos na várzea de Araraquara para júbilo do pai. E os comemorou com tanta alegria que um dia o Guarani, da vizinha Campinas, veio procurá-lo. Quem era o menino que fazia palhaçadas na área?

“Careca”, era assim que já passara a ser chamado, (os diminutivos no mais das vezes são apanágios dos menores) consultou o pai, e o pai, cheio de glória, deu o “sim”, consentindo que o craque fosse para o Bugre.

Então começou uma carreira para a eternidade.

No Guarani, Careca fez chover uma chuva engraçadíssima!

Rapidamente, dos juniores passou aos profissionais e, num piscar de olhos, toda Campinas se enamorou dele.

Careca alegremente infernizava as defesas adversárias, Careca era hábil, rápido, simples, eficiente, fatal. E bem humorado!

O jeito de jogar bola daquele menino chamava a atenção até de quem não gostasse de futebol. Quando a bola estava com Careca recebia um tratamento de luxo, em dois toques, no máximo, ele dava a ela o destino do sucesso, a bola gostava dele, que bola não gosta de ser tratada assim?

Careca, nas proximidades da área, dava um drible curto, às vezes de costas virava como um raio e fazia o gol. Careca servia o companheiro mais próximo como se estivesse fazendo uma caridade sem espalhafatos, Careca, às vezes, com sua agilidade, vinha para a pequena área e saltava mais do que os goleiros e cabeceava para as redes, como o seu pai, o Seu Oliveira, o forte do Seu Oliveira, já dissemos, era a impulsão para cabecear.

O Guarani teve Babá e Nelsinho, teve Américo e Carlinhos, mas o Guarani nunca tinha tido alguém como Careca, Careca era um extra-série!

Aquele menino, o filho do Toninho, o alegre fã do palhaço Carequinha, rapidamente arrebatou o Brasil.

No final dos anos 70, Careca era voz corrente entre aqueles que gostavam de futebol. Ninguém duvidava de que aquele menino era um predestinado.

Eu vi, no Maracanã de 100.000 faces e de 200.000 olhos, o Guarani vencer o Vasco nas semifinais de 1978. Rugia como trovão o clamor do vozerio vascaíno mas Careca silenciou o Maracanã com a sua arte, com a sua alegria e com a sua técnica. Careca desmantelou o Vasco, com a sua simplicidade, com a sua precisão. Vencidos os cariocas, o Guarani de Careca venceu o Palmeiras no Morumbi e no Brinco de Ouro, sempre com gols de Careca, com a mágica do menino, tudo muito fácil, assim como teclar no twitter.

O São Paulo havia brigado com seu maior artilheiro, acabava-se o ciclo de Serginho, herói, anjo e demônio da história do clube paulistano. O São Paulo vendera o passe de Serginho ao Santos e a torcida do Mais Querido estava em pé de guerra.

Quem substituiria Serginho no São Paulo?

O São Paulo trouxe Careca, contratando-o do Guarani por um valor que era uma fábula! Só Careca poderia preencher aquela lacuna, só aquele craque nascente, aquele craque anunciado, aquele menino com ares de gênio, aquele menino alegre que o Brasil já amava poderia satisfazer a torcida mais exigente do planeta: o São Paulo trouxe Careca!

Então, para felicidade do Seu Oliveira que via o filho realizar seus sonhos pessoais, o prodígio veio para o São Paulo e deu o passo decisivo para entrar para a história.

Careca chegou deslumbrado. O filho do Seu Oliveira não queria mais ser palhaço, agora era galã! Namorou as meninas da Paulicéia, a noite era curta diante dos desejos do astro, Careca deslumbrou-se no primeiro momento em que se viu vestido com a sacrossanta e inigualável camisa das três cores. Eu vi a estréia dele no São Paulo. Foi contra o América, de Natal, pelo Campeonato Brasileiro.

Já tínhamos Renato, que com ele formara dupla incomparável no próprio Guarani, esperava-se que se transformassem, ele e Renato, em Pelé e Coutinho no Bem Amado. Careca fez um gol, um golaço, naquela vitória por 4 x 1, no Morumbi. Recebeu uma bola no lado esquerdo da área do adversário, perto da meia lua. Estava de costas para o gol. Com seu jeito espontâneo deu um drible no marcador para dentro, voltou e, de virada, fez o gol com um chute certeiro.

Parecia que Serginho estava esquecido.

Mas não foi assim.

Careca, não se sabe por que razão, foi murchando. Começou a sentir contusões. Uns dizem que era artrite, outros dizem que era noitite, ninguém sabe.  Mestre Mário Travagline afiança que era mesmo  artrite. O certo é que Careca teve um primeiro momento de desilusão. Mas o que era um momento de desilusão para um gênio chamado Careca?

Curado das artrites ou das noitites o menino entrou em forma e tornou-se um dos maiores jogadores da história do São Paulo FC.

Ah, eu vi Careca jogar, e como me orgulho disso!

Foram 4 anos vestindo a camisa do São Paulo. 4 anos que valeram pela eternidade!

Meu Deus, como jogou o Careca no São Paulo! Conheço gente que acha que Careca foi o maior atacante que tivemos!

Vi gols de Careca de todos os tipos. Careca era rápido, ágil, habilidoso, entrava e saía da área como quem ia até ali e voltava, Careca surpreendia, emboscava, era certeiro por baixo e no alto. Careca não perdia gols, nunca! Pelo contrário, Careca dava grife aos gols!

Sim. Porque Careca tinha um jeito especial de marcar gols. Careca tinha um jeito todo próprio, tinha uma ginga, tinha um balanço, uma cadência circense que inebriava a própria bola!

Quando o São Paulo foi campeão paulista em 1985, Careca fez chover e parar de chover.  O Mais Querido revelara Muller, Silas, Sidnei e outros. Mas o que Careca jogou naquele ano foi algo de se escrever para a eternidade. No Brasileiro de 1986, o gol que Careca fez no último instante da prorrogação, contra o Guarani, que o havia revelado, foi um gol impróprio para cardíacos, foi o gol que revelou cardíacos, foi o gol para sempre, o gol que os são-paulinos vivos e mortos abençoarão pelo resto dos tempos! Não preciso descrever aquele sem-pulo de pé esquerdo, sem ângulo, sem sentido, sem amor pelos adversários que devem ter inveja, que morreram e morrerão de inveja, graças a Deus!

Careca, o menino que queria ser palhaço para alegrar o mundo, deixou o mundo todo bobo com o seu futebol.

Careca era um centroavante preciso. Em pequeno espaço fazia o que ninguém esperava. Um segundo de vacilo da defesa e pronto, bola no barbante!

Aquela arrancada do São Paulo para ser Campeão Brasileiro em 1986 teve a marca do gênio de Careca. Ninguém se esquece dos gols que ele fez no campeonato inteiro, ninguém se esquece dos gols que ele fez na reta final, contra o Fluminense, contra o América (duas vezes) e nas finais, contra o Guarani que o revelou. Nenhum são-paulino jamais há de se esquecer das comemorações de Careca naqueles gols, comemorações cheias de teatralidade, cheirando a picadeiro de circo, do jeito que lhe convinha, para matar as saudades da infância.

Em 1982, ainda no Guarani, e sem mídia para ajudar, Careca deveria ter sido o centroavante da Seleção Brasileira na Copa do Mundo; uma contusão o afastou do certame, talvez com ele o resultado tivesse sido outro.

Em 1986 e em 1990 ele esteve nas Copas do Mundo, envergando a camisa do Brasil. Claro, Careca era um jogador de Copas do Mundo!

Em 1987, quando Careca estava simplesmente iluminado no São Paulo FC, quando a torcida o idolatrava, o clube o vendeu para o Nápoli e os são-paulinos choraram, houve um mar de lágrimas no Morumbi. Não havia como segurá-lo, o mundo já se apaixonara pelo seu futebol.

O menino foi se juntar a Diego Maradona; com Maradona e Careca o Nápoli ganhou o título italiano depois de 40 anos, ambos, Maradona e Careca, até hoje são cultuados como deuses na Itália.

Careca, o precioso artilheiro, jamais voltou a envergar a camisa do São Paulo FC. No fim da carreira jogou no Santos FC, jogou também no Japão. Os quatro anos que esteve no Morumbi durarão quatrocentos séculos, virarão lenda na memória dos tricolores, as façanhas de Careca continuarão a ser contadas, de pai para filho, até o fim dos tempos.

Careca é imortal, não morrerá, se ele morrer duvidem.

Lembro-me de uma noite sagrada no Morumbi. Jogavam São Paulo e Ferroviária, pelo Campeonato Paulista, o Campeonato Paulista ainda era místico.

O São Paulo venceu por 4 x 0, Careca fez dois gols de placa no Morumbi. Não pude dormir, tal era a minha excitação com aqueles prodígios, logo eu, que já havia visto Careca fazer coisas inacreditáveis com a sacrossanta camisa tricolor. No dia seguinte, quase insone, fui a uma audiência no fórum central da capital. O magistrado era são-paulino. Findos os trabalhos, nós dois, eu e ele, absolutamente apaixonados pelas obras de arte de Careca na noite anterior, quisemos discutir sobre qual dos dois gols teria sido mais belo, o de bicicleta ou o outro, em que Careca driblara a defesa inteira do adversário. O magistrado divergia de mim, queria por que queria consagrar o gol de bicicleta como o mais bonito. Eu confesso que estava indeciso.

Então invoquei Salomão, o mais justo dos magistrados, o justo dos justos: nenhum dos dois gols poderia ser considerado mais bonito do que o outro, eis que em cada um havia uma beleza singular e inexcedível. Eu não podia optar por um ou outro e os considerava, a ambos, duas obras-primas. Sua Excelência meditou, meditou, e houve por bem conceder. Ponderando judiciosa e equânimemente observou que Careca se excedera em genialidade duas vezes; o gol de bicicleta era melhor do que o gol em que ele driblara a defesa inteira do adversário, mas o gol em que Careca driblara toda a defesa do adversário não houvera sido mais bonito do que o gol de bicicleta. Em suma, não havia como definir, ambos os gols eram antológicos e inesquecíveis, havia empate técnico e acabou-se a discussão. E havia mais: Careca comemorara os dois gols com uma performance circence! Eram gols de Careca, gols com a marca de um dos maiores craques que eu vi jogar.
Careca foi a alegria, a técnica e a precisão cirúrgica na boca do gol.

Mas hoje não há mais Carecas.Talvez um circo e seus personagens tenham inspirado esse deus da bola. Mas hoje quase não há mais nem circos, não há mais a inspiração dos palhaços, rareiam os craques, nestes dias em que eu junto estas palavras não se discute mais sobre a beleza ou sobre a alegria dos gols tricolores.

Tempos modernos.

Fazer o que, iguais? Evocar nossa mística história e de joelhos implorar por melhores e mais alegres tempos!

E, claro, lembrar com saudade dos nossos astros eternos.

Ave, Careca, Ave!

Dr Catta-Preta é advogado e são paulino.
No twitter @catta_preta
e-mail: antoniocattapreta.com.br